Se você ainda não conhece, está mais do que na hora de conhecer Evelyn Glennie, uma musicista para ser ouvida com ouvidos, olhos, alma e coração. Uma mulher que, antes de ser uma musicista renomada, é um exemplo de perseverança e atitude. Alguém para lhe fazer questionar a definição que você tem para a palavra IMPOSSÍVEL!

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Ela sobe ao palco e logo começa a surpreender. Antes de começar a falar já retira os sapatos e, ao abrir a boca, percebemos que estamos diante de uma professora, uma palestrante, uma bela oradora, uma mulher que se utiliza das palavras com a mesma desenvoltura que se utiliza das mãos ou de baquetas para tocar um instrumento de percussão. Uma verdadeira aula de música perante um público que extasiado nem se dá conta do milagre que está presenciando. Ela diferencia semitons utilizando-se de um instrumento chamado marimba e explicando o que está realizando, fazendo parecer que aquilo tudo seja algo simples e possível de ser feito por qualquer mortal.

Mas aí você deve estar se perguntando: o que há de tão sensacional nisso? Afinal de contas, mesmo quem não a conhece, ao vê-la nesta posição pode pressupor que ela seja uma renomada musicista e, que todo este trabalho, nada mais é do que um preparo natural exigido pela profissão que ela escolheu exercer.

Ok, mas esta musicista chama-se Evelyn Elizabeth Ann Glennie e, caso não fosse informado, você talvez nem imaginasse tratar-se de uma pessoa surda. Isso mesmo, surda, sem nenhum resquício auditivo.

Evelyn Glennie é escocesa e, começou a perder a audição aos oito anos de idade, tornando-se surda profunda aos doze. Isto explica o fato de expressar-se tão bem com as palavras, pois já era oralizada quando perdeu totalmente a audição. Sendo assim, estamos diante de uma instrumentista e de um ser humano formidável que, sem abater-se pelos problemas que a vida lhe impôs, seguiu em frente em busca da realização de seus sonhos. Em suas palestras (algumas delas disponibilizadas na internet), Evelyn conta um pouco da sua trajetória até chegar no nível em que se encontra hoje. Em uma destas palestras, Evelyn menciona que seu trabalho depende completamente da audição e, que por isso, seu real e único objetivo de vida é ensinar o mundo a ouvir, o que ainda segundo ela, pode parecer algo simples, mas na realidade é extremamente difícil.

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Ela relata que quando tinha doze anos e começou a estudar percussão, seu professor a questionou sobre como prosseguiriam com os estudos, já que a música dependia de ouvir. Sem hesitar, Evelyn retrucou, perguntando a ele qual seria o problema nisso. Seu professor perguntou então como ela ouviria os sons, já que era surda, ao que prontamente Evelyn respondeu que, além de utilizar os ouvidos, também era capaz de ouvir através das mãos, dos braços, das maçãs do rosto, da barriga, tórax, pernas, ou seja, por diversas partes de seu corpo. A partir de então, as lições sempre eram iniciadas com Evelyn e seu professor afinando os tambores com intervalos muito pequenos entre os tons. Para ela, é algo impressionante a capacidade de conseguir sentir as pequenas diferenças de sons através dos dedos, a partir do momento em que libera seu corpo, permitindo que as vibrações atravessem por sua mão. Além disso, Evelyn lembra que ela e seu professor colocavam as mãos nas paredes da sala de música e, juntos, se esforçavam de verdade para se conectarem àqueles sons, de uma forma muito mais ampla do que somente dependendo dos ouvidos.

Com o passar do tempo e, dando sequência aos seus estudos e ao seu sonho de tornar-se uma grande musicista, Evelyn Glennie realizou uma audição para ingressar na Royal Academy of Music, em Londres, onde em primeiro momento disseram-lhe que não poderiam aceitá-la, já que não podiam imaginar qual seria o futuro de um músico surdo. Entretanto, disposta a não aceitar um não de maneira alguma, ela menciona que disse a eles algo como: “vejam bem, se vocês se recusam a me aceitar por estas razões, ao invés da capacidade de tocar, entender e amar a arte de criar sons, então temos que pensar de maneira muito séria sobre as pessoas que vocês efetivamente aceitam”. Após esta argumentação e, uma segunda audição, Evelyn deu o passo que mudaria não somente a sua carreira, mas a vida de muitas outras pessoas com deficiência também apaixonadas pela música. Deste momento em diante, as instituições de música do Reino Unido passaram a não mais recusar qualquer candidatura com base em deficiência, fosse ela física ou mental, dando a oportunidade de que cada candidato fosse ouvido, experimentado e, então, com base na sua competência musical, aí sim admitido ou não. Esta nova postura das instituições propiciou a entrada de vários estudantes com deficiência em instituições que ofereciam o ensino de música e, segundo Evelyn, muitos deles são músicos profissionais atuantes em orquestras em diferentes partes do mundo.

Evelyn menciona que este momento, esta mudança com relação à forma de se enxergar a música, mais precisamente o som em si, fez com que não só as instituições musicais mudassem sua postura quanto à exposição dos surdos aos sons, mas também os especialistas em acústica começassem a repensar a forma como as salas de concertos eram projetadas. Tudo isso levando em consideração o fato de que cada pessoa pode perceber o som de uma forma, passando-se assim a ouvir o que os surdos pensavam sobre a música e qual a melhor forma de perceberem os sons ao seu redor, o que antes era visto como algo impossível, já que, ainda segundo Evelyn, apenas fechamos os olhos e imaginos o que é a surdez e a definimos. Corroborando com este pensamento, ela ainda dá o exemplo de que ao vermos uma pessoa em uma cadeira de rodas, logo pensamos que a mesma não pode andar. Entretanto, se ela pode dar alguns passos, isso para ela já significa que pode andar.

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Ao fim de tudo, o que Evelyn quer nos mostrar é que cada pessoa percebe as coisas de uma forma diferente. Não só a música, mas tudo ao nosso redor é visto, ouvido e sentido de uma forma diferente por cada indivíduo. Cabe a cada um buscar a sua forma de utilizar ao máximo seus potenciais.

Hoje ela prova a todos que mesmo surda é capaz de realizar seu sonho. Evelyn já viajou boa parte do mundo apresentando-se sozinha e também acompanhando orquestras e músicos reconhecidos em nível mundial. Além disso, em 2007 foi condecorada como “Dame Commander of the Order of the British Empire”, honra esta concecida pela rainha da Inglaterra a personalidades de destaque. Por este reconhecimento que tem no Reino Unido, também participou da abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. E mais recentemente, em 2015, comprovando a solidez de sua carreira, recebeu o prêmio “Polar Music Prize”, mais um entre os mais de oitenta prêmios internacionais que já recebeu ao longo de sua exitosa carreira.


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AUTOR – XINHO MONTENEGRO
Nascido em Montenegro/RS, atualmente mora em Florianópolis/SC. Cantor, compositor, licenciado em Música, especialista em Educação Inclusiva, especialista em Gestão Cultural e Mestre em Música, sempre com trabalhos voltados para a inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade social e pessoas com autismo, síndrome de down, paralisia cerebral, cegueira, etc e, no trabalho de mestrado, mais precisamente pesquisando música para surdos. Além disso, também cursa bacharelado em Letras LIBRAS na Universidade Federal de Santa Catarina e, nas horas vagas (se é que elas existem), é corredor de rua e observador de pessoas e situações do cotidiano, procurando traduzí-las em textos e canções.
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